LITERATURA AFRICANA DE LÍNGUA PORTUGUESA


- Fui sonhado por ti - disse-lhe o pássaro - com o fim de esclarecer o espírito dos homens e de trazer a liberdade a este pobre pais.

O discurso do pássaro assustou o enfermeiro, homem simples, tímido, avesso a confrontos, e sem qualquer vocação para a política.

- Foi apenas um sonho - disse à mulher -, um sonho estúpido.

Na noite seguinte, porem, o pássaro voltou a aparecer-lhe. Estava ainda mais branco, mais trágico, e parecia aborrecido com o desinteresse do enfermeiro: - Ordeno-te que vás por esse país fora e digas a todos os homens que se preparem para um mundo novo. Os brancos vão partir e os pretos ocuparão as casas, os palácios, as igrejas e os quartéis, e a liberdade há de reinar para sempre. Dizendo isto sacudiu as asas e as suas penas espalharam-se pelo quarto:

- Com estas minhas penas hás de curar os enfermos - disse o pássaro -, e assim até os mais incrédulos acreditarão em ti e seguirão os teus passos. (AGUALUSA, José Eduardo. Passei por um conto. In: CHAVES, Rita (org.). Contos Africanos dos países de língua portuguesa. São Paulo: Ática, 2009, p. 106-107)

 

Após a leitura do fragmento do conto “Passei por um conto”, de Agualusa, e seus estudos sobre a literatura angolana, podemos perceber:


As profecias de uma criança sobre o destino de Angola.


O racismo e a necessidade de assumir uma identidade livre das imposições colonialistas.


O cotidiano angolano, marcado pela seca e pela fome.


A morte invadindo o cotidiano da sociedade angolano.


Os reflexos da luta pela independência e da guerra civil angolana.

Ao analisarmos o conto “Nós choramos pelo cão Tinhoso”, de Ondjaki, dizemos que ele é metafórico, pois o cão tinhoso representa os angolanos que eram explorados e maltratados pelos portugueses na época da colonização, e as pessoas que choram pelo cão tinhoso representam os outros países da África que sofrem vendo mais um país sendo dominado pelos colonizadores.

 

Leia com atenção o fragmento a seguir e tente perceber essa metáfora:

 

Os outros começaram a ler a parte deles. No início, o texto ainda está naquela parte que na prova perguntam qual é e uma pessoa diz que é só introdução. Os nomes dos personagens, a situação assim no geral, e a maka1 do cão. Mas depois o texto ficava duro: tinham dado ordem num grupo de miúdos para bondar2 o Cão Tinhoso. Os miúdos tinham ficado contentes com essa ordem assim muito adulta, só uma menina chamada Isaura afinal queria dar protecção ao cão. O cão se chamava Cão Tinhoso e tinha feridas penduradas, eu sei que já falei isto, mas eu gosto muito do Cão Tinhoso. 

 

Na sexta classe eu também tinha gostado bué3 dele e eu sabia que aquele texto era duro de ler. Mas nunca pensei que umas lágrimas pudessem ficar tão pesadas dentro duma pessoa. Se calhar é porque uma pessoa na oitava classe já cresceu um bocadinho mais, a voz já está mais grossa, já ficamos toda hora a olhar as cuecas das meninas "entaladas na gaveta", queremos beijos na boca mais demorados e na dança de slow4 ficamos todos agarrados até os pais e os primos das moças virem perguntar se estamos com frio mesmo assim em Luanda a fazer tanto calor. Se calhar é isso, eu estava mais crescido na maneira de ler o texto, porque comecei a pensar que aquele grupo que lhes mandaram matar o Cão Tinhoso com tiros de pressão de ar, era como o grupo que tinha sido escolhido para ler o texto. (ONDJAKI. Nós choramos pelo cão Tinhoso. In: CHAVES, Rita (org.). Contos Africanos dos países de língua portuguesa. São Paulo: Ática, 2009, p. 99)

 

  1. Discussão, debate, briga, confusão.
  2. Matar.
  3. Gíria que significa “muito”, “bastante”.
  4. Diz-se de qualquer tipo de dança em que o casal dança aconchegado, em ritmo lento.

 

Com base na análise do fragmento, podemos dizer que o narrador é:


Narrador-onisciente, pela camarada professora de Português.


Narrador-personagem, em que o autor, já adulto, narra os acontecimentos.


Narrador-personagem, a visão do adolescente Jacó.


Narrador-onisciente, versão fiel do povo moçambicano sobre a Guerra Fria.


Narrador-observador, com o próprio cão Tinhoso narrando os fatos.

Em 1975, ano da proclamação da independência de Moçambique, surgiram dois romances de significativo impacto no desenvolvimento do gênero no país. Assinale a alternativa que representa corretamente o nome destes dois romances:

 


Norte, de Virgílio Chide Ferrão; Portagem, de Orlando Mendes.


África colonial, de Afonso Ribeiro; Norte, de Virgílio Chide Ferrão.


Ualalapi, de Ungulani Ba Ka Khosa; Portagem, de Orlando Mendes.


Ualalapi, de Ungulani Ba Ka Khosa; África colonial, de Afonso Ribeiro.


África colonial, de Afonso Ribeiro; Portagem, de Orlando Mendes.

Leia o fragmento que segue:

“- Deus fez os pretos porque tinha de os haver. Tinha de os haver, meu filho, Ele pensou que realmente tinha de os haver…. Depois arrependeu-se de os ter feito porque os outros homens se riam deles e levavam-nos para casa deles para os pôr a servir de escravos ou pouco mais. Mas como Ele já não os pudesse fazer ficar todos brancos, porque os que já se tinham habituados a vê-los pretos reclamariam, fez com que as palmas das mãos deles ficassem exactamente como as palmas das mãos dos outros homens. E sabes porque é que foi? Claro que não sabes e não admira porque muitos e muitos não sabem. Pois olha: foi para mostrar que o que os homens fazem é apenas obra dos homens…Que o que os homens fazem é efeito por mãos iguais, mãos de pessoas que se tivessem juízo sabem que antes de serem qualquer outra coisa são homens. Deve ter sido a pensar assim que Ele fez com que as mãos dos pretos fossem iguais às mãos dos homens que dão graças a Deus por não serem pretos.

Depois de dizer isso tudo, a minha mãe beijou-me as mãos”. (HONWANA, Luís Bernardo. As mão dos pretos. In: CHAVES, Rita (org.). Contos Africanos dos países de língua portuguesa. São Paulo: Ática, 2009, p. 27-28)

 

O fragmento apresentado trada de uma questão muito forte na literatura africana. Assinale a alternativa que melhor representa esse problema:


As mudanças e o amadurecimento do personagem ao longo da narrativa.


A morte invadindo o cotidiano da sociedade moçambicana.


O anseio por mudanças em uma época marcada pela guerra.


A fome e a seca se mesclando ao cotidiano dos personagens.


O racismo e a necessidade de assumir uma identidade livre das imposições colonialistas.

Aí mesmo é que Bino espiou. Da janela, como tinha a mania, e até costumava espreitar a professora e tudo. Viu Zito mostrar as três balas vazias, amarelas, a brilhar na palma da mão dele cor-de-rosa, e Zeca Silva — esse amigo dos negros, sem-vergonha! — desembrulhar ainda com cuidado, o carrinho de linhas caqui.

 

(...)

 

Devagar, trepando na cadeira, sem barulho, recebeu o bilhete, guardou-lhe bem no calção e pôs outra vez na mão do amigo as três balas vazias, que luziram amarelas na pele cor-de-rosa de Zeca Silva”. (VIEIRA, Luandino. Zito Makoa, da 4ª classe. In: CHAVES, Rita (org.). Contos Africanos dos países de língua portuguesa. São Paulo: Ática, 2009)

 

Estes dois fragmentos foram tirados do conto Zito Makoa, da 4ª classe, de Luandino Vieira. Um retirado mais do início do texto, outro do final. Os termos em destaque no fragmentos representam:


A igualdade das raças, por meio das duas palmas das mãos serem rosadas.


O egoísmo, pelo fato de Zito ter que devolver as balas à Zeca.


A traição, por Bino culpar injustamente Zito de ter roubado as balas de Zeca. 


O racismo, quando Zito, o negro, foi impedido de ter amizade com Zeca, o branco.


A solidariedade, por estarem dividindo as balas.

Leia com atenção o fragmento que segue, retirado do conto Godido, de João Dias: 

 

“Os pretos dividiam-se em dois grupos: os das pequenas machambas independentes e os empregados da quinta. Os primeiros, sentindo o peso dos impostos, vendiam seus produtos ao caseiro. De modo que uns subordinados diretamente e outros conscientes de uma liberdade que não tinham, todos viviam para o grande proprietário”.

Com base na leitura do fragmento e em seus estudos sobre João Dias, assinale a alternativa que melhor representa o fragmento apresentado:

 


Descreve a divisão de grupos sociais presentes em Cabo Verde na época da independência africana, quando não mais havia interferência de Portugal.


Demonstra o quão forte são os negros africanos, que conseguem a liberdade de organizar a sociedade em que vivem.


Identifica as divisões sociais existentes em Angola no início do século XXI, época em que o conto foi publicado.


Representa a estrutura social moçambicana sem a influência do colonizador português.


Apresenta as transformações do local, sobretudo e essencialmente no que se refere à esfera do trabalho, com a chegada do patrão português.

Leia com atenção o fragmento que segue, retirado do texto “Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra”, de Mia Couto.

 

As suas mãos trabalham na braguilha das calças do falecido. Dulcineusa me confessou mais tarde: era assim que o marido gostava de começar as intimidades. Um fazer de conta que era outra coisa, a exemplo do gato que distrai o olhar enquanto segura a presa nas patas. Esse o acordo silencioso que tinham: ele chegava em casa e se queixava que tinha um botão a cair. Calada, Dulcineusa se armava dos apetrechos da costura e se posicionava a jeito dos prazeres e dos afazeres.

 

(COUTO, M. Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra. São Paulo: Cia. das Letras, 2002.)

 

 

Nesse fragmento pode-se notar o universo feminino em seu contexto doméstico, com base na análise do trecho apresentado, observa-se que

 

 


à mulher cabe o poder da sedução, expresso pelos gestos, olhares e silêncios que ensaiam.   


desejo sexual é entendido como uma fraqueza moral, incompatível com a mulher casada.   


a mulher incorpora o sentimento de culpa e age com apatia, como no mito bíblico da serpente.   


a dissimulação e a malícia fazem parte do repertório feminino nos espaços público e íntimo.  


a mulher tem um comportamento marcado por convenções de papéis sexuais.   

SURGE ET AMBULA

– África ! Ergue-te e caminha !

A luz é bela e espera.

Corre em teu corpo a seiva bruta

dá vida ao Homem e alimenta a fera.

– África !

Ergue-te e caminha !

para a tua luta !

 

Teu corpo há muito que é prostrado.

Jovem tronco negro e musculado

quando chegar a nossa hora.

África !

A vida é tua e minha.

– Vamos ! Ergue-te e caminha!

 

Com base na leitura do poema, podemos inferir que:

 


O eu-lírico convoca o povo português para invadir a África, tomando toda a riqueza presente na terra.


O texto nos mostra claramente a luta do povo branco contra o povo negro, pela colonização africana.


O poema retoma as guerras angolanas pela posse das terras africanas.


O poema mostra a fraqueza do povo africano, que não conseguem lutar por seus sonhos, desejos.


O eu-lírico faz um chamado ao povo africano, para seguirem em frente, pois são fortes e não podem desistir da luta.

Leia o poema SURGE ET AMBULA, de António Rui Noronha, 

 

SURGE ET AMBULA

 

Dormes! e o mundo marcha, ó pátria do mistério.
Dormes! e o mundo rola, o mundo vai seguindo…
O progresso caminha ao alro de um hemisfério
E tu dormes no outro sono o sono do teu infindo…

A selva faz de ti sinistro eremitério,
onde sozinha, à noite, a fera anda rugindo…
Lança-te o Tempo ao rosto estranho vituério
E tu, ao Tempo alheia, ó África, dormindo…

Desperta. Já no alto adejam corvos
Ansiosos de cair e de beber aos sorvos
Teu sangue ainda quente, em carne sonâmbula…

Desperta. O teu dormir já foi mais que terreno…
Ouve a Voz do teu Progresso, este outro Nazareno
Que a mão te estende e diz-te:
África, surge et ambula!

 

Com base em seus estudos sobre o autor e a leitura do poema, analise as afirmações que seguem:

 

I- O poema aborda os problemas contemporâneos, vistos pelo poeta e dirige-se aos africanos adormecidos ao pedir que acordem, vejam e resolvam as suas circunstâncias. 

II- Escrito em forma de soneto clássico: quatro estrofes, os primeiros dois sendo quartetos, os últimos dois tercetos. 

III- O esquema de rima é o do soneto inglês ABBA/ABBA/CDC/DED.

IV- O poema usa uma metáfora para comparar o progresso tardio e vagaroso do seu povo à uma soneca. 

V- A repetição da palavra “Dormes!” Na primeira estrofe e a palavra “desperta” na última fazem o papel de guiar a leitura do poema, que começa dizendo tudo que a África perde, por estar atrasada e termina admoestando, que ela acorde e dizendo-lhe porque é necessário.

 

São CORRETAS as afirmações contidas apenas em:


II, III, IV, V.


I, III, IV, V.


I, II, III, V.


I, II, III, IV.


I, II, IV, V.

Leia com atenção o poema A palavra, do poeta cabo-verdiano Manuel Lopes:

 

A PALAVRA

Manuel Lopes

 

te lavo e lavro
palavra / pão
polida pedra
de construção

do quanto faço
deste edifício
em que elaboro
fé e ofício,

te esculpo e bruno
verbo/canção
no diário labor
de artesão.

te louvo lume
e pedra dara
com que ergo o templo
da flor mais cara

e clara: poesia
com que reparto
os sóis do meu dia
o suor do meu dia
o fel do meu dia

as mazelas do homem
as amargas vidas
o pão subtraído
as pagas devidas

a paz relativa
a justiça rara
a fome de todos
a morte na cara
da criança. o aço
que o corpo nos cava,

a fé o cansaço
desta luta brava

a fartura a poucos
de muitos tomada

o chão proibido
a água negada

o amor que rareia e
a festa sonhada
.....................................
palavra larva
semente pura
que em mim explodes
de sons madura,

te lavo e lavro
verbo / canção

te louvo lume
poema / pão

manhã sonhada
meu sim/meu não.

 

Agora, analise as afirmações que seguem:

I- Possui uma linguagem coloquial e um estilo despido de ornamentos retóricos da lírica clássica.

II- Segue a métrica clássica, para a produção deste soneto.

III- Por meio da metalinguagem, faz uma reflexão sobre o processo de produção.

IV- Demonstra, por meio das palavras, a relação entre o real e o pensamento. 

V- Um dos poucos textos do autor quem não tratada sobre o sofrimento das pessoas simples/pobres da África.

 

São CORRETAS apenas as afirmações contidas em:

 


II, III, IV.


III, IV, V.


I, II, IV.


I, III, V.


I, III, IV.

Páginas: 123